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Agroecologia

Reserva Florestal Bom Retiro

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Esta é a reconstrução completa e integrada dessa trajetória de vida, estruturada a partir dos relatos detalhados de Nelson:
1. A Gênese da Resistência: Trajetória Acadêmica e Luta pela Terra
A profunda ligação de Luiz Nelson com a fazenda de seu pai consolidou-se na adolescência, quando, por volta dos 16 anos, ele frequentava intensamente o local com amigos
. Diante da intenção de sua família de vender a fazenda para comprar terras em Teresópolis (região onde os parentes já possuíam um bairro quase inteiro e para onde Nelson resistia em ir), ele buscou uma estratégia consciente para inviabilizar o negócio: ingressar em um curso superior na área agrícola
. Foi aprovado em Agronomia na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), onde conheceu Mônica, estudante de Zootecnia
. Eles se casaram e tiveram duas filhas, Tainá e Luana
.
Para manter a propriedade produtiva e evitar que o pai a vendesse, o casal viajava para a fazenda nos fins de semana
. Contudo, na ausência deles, o ritmo de trabalho caía ou as tarefas eram executadas incorretamente, o que forçou Nelson a trancar o curso universitário por duas vezes para se dedicar integralmente à gestão diária
.
Durante a segunda interrupção dos estudos, Nelson aproximou-se de seu professor de bovinocultura de leite e buscou capacitação técnica com Mônica no CNPGL (Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Leite)
. Eles profissionalizaram a pecuária leiteira da propriedade:
Adquiriram vacas holandesas registradas e altamente produtivas
.
Passaram a pasteurizar e empacotar o leite na própria fazenda
.
Implementaram a produção artesanal de queijos, comercializados por Nelson diretamente para conhecidos e vizinhos de seu pai no Rio de Janeiro
.
Paralelamente, para contornar a desvalorização sistemática das bananas por compradores que se aproveitavam da rápida perecibilidade da fruta para forçar preços abusivamente baixos, Nelson fundou a fábrica de banana passa Terra-Vita
. O empreendimento gerou empregos na comunidade de Aldeia Velha, empregando inclusive crianças na etapa de descascar as bananas
. Embora Nelson resuma essas exaustivas atividades agrícolas como um exercício de “trocar dinheiro” (muito trabalho para pouco lucro real), elas cumpriram a função histórica vital de funcionar como a âncora econômica que o manteve na fazenda e impediu a venda da terra pela família
.
2. O Despertar Conservacionista e o Enfrentamento à Caça
Ao morar definitivamente na fazenda, Nelson passou a observar a natureza com atenção e aproximou-se da Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD), sediada na Reserva Biológica de Poço das Antas
. Através de literaturas científicas, conscientizou-se de que habitava a Mata Atlântica — o bioma mais ameaçado de extinção do planeta, mas dono de uma mega biodiversidade e alto índice de espécies endêmicas
.
A constatação de práticas predatórias locais, como a caça e o aprisionamento de pássaros silvestres em Aldeia Velha, passou a incomodá-lo profundamente
. Nelson relata que ouvir disparos de armas de fogo ou latidos de cães de caça na mata (inclusive dentro de sua fazenda) gerava-lhe uma urgência de agir
. Sustentado apenas por sua fé como escudo, ele realizava incursões na mata, desarmado, para flagrar caçadores e afugentar invasores
.
Essa postura gerou forte hostilidade na comunidade
. Espalhou-se o boato de que Nelson andava fortemente armado para confrontar os infratores
. O isolamento social era evidente: quando Nelson entrava nos estabelecimentos locais de Aldeia Velha (como o Bar do Dercinho, Bar do Jobim ou Bar do Jorge Gordo) para comprar itens básicos, todos calavam a boca imediatamente para esconder as conversas sobre caça e aprisionamento de aves
.
3. O Embate Familiar e as Áreas de Preservação Permanente (APPs)
Ao estudar a legislação ambiental, Nelson percebeu que quase toda a área da fazenda enquadrava-se como Área de Preservação Permanente (APP), englobando topos de morro, nascentes, margens de rios e encostas com declividade acima de 45 graus
. Por lei, tais áreas deveriam ser floresta, mas historicamente eram usadas para pasto e bananal
.
Quando Nelson decidiu cumprir a lei e deixar que essas áreas se regenerassem espontaneamente, enfrentou forte oposição de seu pai, que detinha o título da terra, financiava a fazenda e exigia o respeito às atividades tradicionais
. Para os pais de Nelson, a atitude dele era vista com preconceito: achavam que ele era um “hippie” que não queria trabalhar, por estar sempre sorrindo e queimado de sol apesar de ter poucos recursos
. Nelson, estrategicamente, passou a deixar que as áreas menos visíveis do pasto e do bananal virassem floresta de forma discreta
.
O ápice do confronto familiar ocorreu quando seu pai, baseado em informações de funcionários que agiam como “espiões” (Roberto Cavallo e sua esposa Maria), resolveu intervir
. O pai ordenou a roçada de uma encosta de APP em plena regeneração à beira do rio
. Nelson argumentou que aquilo era um crime ambiental e que a vegetação abrigava ninhos e gambás que controlavam o caramujo-africano na região
. Diante da recusa do pai, que insistiu dizendo ser o dono da propriedade, Nelson pegou sua neta Flora (ainda bebê) nos braços e deitou-se na frente do carro do pai para impedi-lo de sair da fazenda
. O pai buzinou com raiva e ameaçou passar por cima, mas a filha de Nelson, Tainá, mediou o conflito, convencendo o avô a descer do carro e inspecionar a área, o que acabou salvando a regeneração daquele trecho de mata ciliar
.
4. A Porteira Amarela, a Ameaça de Morte e a Corrida até o Galeão
Em 1988, sem amparo em leis específicas de reservas privadas, Nelson mandou confeccionar uma grande placa de ferro amarela com letras verdes e a instalou na porteira da fazenda com a inscrição “Reserva Permanente dos Recursos Naturais – Fazenda Bom Retiro”, com o objetivo de simular um caráter de oficialidade (“fingir que era alguma coisa de Brasília”) para afastar caçadores
.
A retaliação foi violenta
. Em um domingo de manhã, Nelson deparou-se com um gambá morto e empalado nas pontas de ferro da porteira, acompanhado de um bilhete escrito a lápis que ameaçava diretamente sua família: “Lembre que você tem duas filhas”
. Sob o impacto da ameaça, as filhas Tainá (de 5 anos) e Luana (de quase 4) passaram mais de um ano sem poder visitar a fazenda
. Apesar da imensa pressão de seu pai para que abandonasse as terras e fosse embora, Nelson recusou-se a recuar
.
Em 1990, Denise Rambaldi informou a Nelson que o governo federal havia criado uma portaria permitindo que áreas florestadas fossem transformadas em Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) sob gravame perpétuo e irreversível em cartório
. Seu pai, influenciado por tabeliães, resistiu fortemente, temendo que a declaração de “improdutividade” da floresta fosse um pretexto do governo para desapropriar a terra para reforma agrária
.
Para quebrar essa desconfiança, Nelson:
Viajou até Goiás para conhecer a fazenda Vagafogo (a primeira RPPN criada no Brasil)
.
Realizou três viagens a Brasília para consultar a assessoria jurídica da ONG Funatura
.
Conseguiu a comprovação legal de que o status de RPPN, na verdade, blindava a propriedade contra qualquer processo de desapropriação agrária
.
Com as garantias em mãos, Nelson conseguiu que seus pais assinassem a papelada em um sábado
. Temendo que eles se arrependessem até segunda-feira, Nelson dirigiu imediatamente até o Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, cujo correio funcionava 24 horas, e postou a documentação para Brasília na mesma noite, selando o processo sem possibilidade de retorno
. Após três anos de lentidão burocrática e insistência entre a superintendência do IBAMA no Rio e a presidência em Brasília, a portaria foi assinada em 1993, tornando a Fazenda Bom Retiro a primeira RPPN homologada no estado do Rio de Janeiro, com 494 de seus 556 hectares destinados permanentemente à conservação (91% da área total)
.
5. A Transformação Histórica: “De Serraria a Reserva” e Projetos de Restauração
A transformação promovida por Luiz Nelson consolidou o lema local da propriedade: “de serraria a reserva”
. A fazenda havia sido comprada em 1948 por seu avô, um português focado no desbravamento e na exploração de madeira
. Utilizando canais de desvio de água abertos por escravizados na época imperial (trabalho braçal na enxada que Nelson descreve como “uma coisa muito louca”) para mover uma fábrica de farinha antiga, o avô viajou à Alemanha para importar uma turbina com gerador
. O equipamento gerava eletricidade e operava a serraria por meio de polias
. Com a criação da reserva, o maquinário de destruição da floresta foi definitivamente desativado, e o antigo galpão deu lugar a um campo de futebol
.
A partir da homologação, a RPPN passou a captar grandes projetos de restauração florestal:
Fundação Disney: Nelson obteve fomento da fundação para regenerar a mata ciliar na baixada do rio
.
Autopista Fluminense: Firmou uma parceria de compensação ambiental (TAC) decorrente da duplicação da BR-101 para reflorestar pastagens ribeirinhas
. Nelson impôs a condição inegociável de que nenhum herbicida ou formicida químico fosse utilizado
. A empresa aceitou o desafio e mobilizou equipes manuais que, com enxadas e roçadeiras, capinaram o pasto invasor a cada 15 dias durante dois anos, até que as árvores sombreassem o solo e vencessem a competição com o capim
.
6. Parcerias de Sucesso Científico e Equilíbrio Ecológico
A RPPN Bom Retiro tornou-se um laboratório vivo de biodiversidade e equilíbrio ecológico:
A Reintrodução do Mico-Leão-Dourado: Em 1994, Denise Rambaldi propôs o teste de soltura de um casal de micos-leões-dourados em encostas acima de 200 metros de altitude para verificar se o primata (historicamente de baixada) se adaptaria ao morro
. Inicialmente, os animais viriam do Zoológico de Washington, mas constatou-se que micos de cativeiro não sabiam reconhecer predadores (como gaviões e jiboias), beber água em bromélias ou buscar alimento
. Nelson aceitou receber, em vez disso, um casal já nascido na floresta, translocado da fazenda Rio Vermelho
. A adaptação foi um marco histórico: em 1996, nasceu o primeiro par de filhotes silvestres na RPPN
. O sucesso comprovou cientificamente que a espécie podia viver em áreas de encosta contínuas, servindo de base para que a população geral de micos superasse o limiar de extinção e ultrapassasse 3 mil indivíduos atualmente
.
Catálogo de Aves: Através de um financiamento de 20 mil dólares da SOS Mata Atlântica, a RPPN elaborou seu plano de manejo com apoio da UFRJ
. O célebre ornitólogo Fernando Pacheco catalogou 271 espécies de aves na propriedade, comprovando a eficácia da regeneração da floresta
.
O Equilíbrio das Serpentes Peçonhentas: Nelson relata que, durante a fase de transição e competição entre o pasto e a mata em regeneração, a presença de cobras peçonhentas (como jararacas e jararacuçus) era alarmante, com cobras gigantescas chegando a entrar em sua casa
. Com a consolidação definitiva da floresta e o fim do pasto, essas cobras sumiram
. Nelson atribui isso ao reestabelecimento do equilíbrio ecológico e à proliferação massiva de lagartos (predadores imunes ao veneno) e de gambás na reserva
.
Visitas e Histórias Curiosas: A reserva recebeu visitas ilustres, como o empresário Roberto Marinho, que pousou de helicóptero no campo de futebol para uma confraternização
, e o documentarista Marco Oxéia, da National Geographic, que passou três dias na mata rastreando a cobra surucucu e ficou espantado ao ver Nelson acompanhá-lo descalço pela floresta
. Há também registros divertidos, como o dia em que lontras selvagens invadiram o lago de cima e devoraram todas as 100 tilápias que sua filha Luana havia comprado para criar
.
7. Viabilidade Financeira através do Ecoturismo Simplificado
Para viabilizar a manutenção da reserva sem as atividades pecuárias e agrícolas antigas, Luiz Nelson estruturou uma operação de ecoturismo e apoio à pesquisa baseada em seu Plano de Manejo
:
Infraestrutura intuitiva: Construiu o Salão de Educação Ambiental na entrada da fazenda com um aporte de 15 mil dólares obtido da SOS Mata Atlântica
.
Alojamento de pesquisadores: Edificou suítes de pedra geminadas para acomodar os cientistas da UERJ e UFRJ que antes dormiam em barracas
. Posteriormente, os próprios pesquisadores passaram a trazer suas famílias, abrindo caminho para o ecoturismo
. O antigo curral de vacas leiteiras foi desativado e convertido em camping e refeitório
.
Modelo simplificado: Para contornar a escassez de mão de obra local e evitar a estressante logística de gerir estoques de comida e enxovais, Nelson adotou cozinhas coletivas
. Os próprios hóspedes (que trazem roupas de cama e banho) preparam seus alimentos, cobrando taxas de Day Use, hospedagem em suítes, alojamento coletivo e camping para manter a reserva financeiramente sustentável
.
8. A Visão de Futuro: Profilaxia, Cura e Sucessão Familiar
A RPPN Bom Retiro agora direciona sua atuação para um novo horizonte: a consolidação da floresta como um espaço terapêutico de cura e bem-estar
. Baseado no conceito de “banho de floresta”, o slogan oficial passou a ser: “Reserva Florestal, viva a alegria de viver feliz e saudável. Na Reserva Florestal Bom Retiro, um pedacinho do céu na terra”
, amparado na tríade “profilaxia, bem viver e cura”
:
Profilaxia: Práticas preventivas na natureza para manter saudável quem ainda não adoeceu
.
Bem Viver: A melhora espontânea no bem-estar físico e mental relatada pelos visitantes ao entrarem em contato com a floresta
.
Cura: O restabelecimento proporcionado pelo contato profundo com o ecossistema (através de fitoncedas liberadas pelas árvores e o som das águas)
.
Para operacionalizar essa visão, Nelson tem reativado estruturas como a Temazcal (Tenda do Suor) e busca fechar parcerias com escolas de meditação, terapias integrativas e fitoterapia
.
A perenidade do projeto está assegurada pela sucessão familiar
. Nelson expressa imenso alívio ao perceber que suas filhas e netos estão engajados em dar continuidade a essa filosofia de proteção, impedindo que a área seja degradada ou mercantilizada para fins comerciais barulhentos (como bares com som alto na beira do rio)
. Ele descarta qualquer ambição política partidária (tendo desistido de se candidatar a vereador no passado), preferindo atuar estritamente como consultor técnico focado em demonstrar resultados práticos de conservação
.
Por fim, ele ressalta que o pleno desenvolvimento sustentável de Aldeia Velha depende de investimentos estruturais básicos do poder público de Silva Jardim — como melhorias nas estradas, sinalização adequada na BR-101 e coleta seletiva de lixo eficiente
—, além da retomada da educação ambiental escolar para engajar as novas gerações locais na proteção desse patrimônio.

Entrevista realizada com Luiz Nélson da RPPN Bom Retiro em 03/09/26.

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